10.2.06

Perseverança

Recentemente descobriram que há uma substância química no nosso corpo responsável pela paixão: aquele friozinho na barriga, a felicidade intensa, como se o mundo de repente adquirisse cores mais vivas e estivéssemos um pouco em êxtase. Dois anos depois, essa substância cai de nível e outra começa a comandar nosso sistema amoroso. Essa por sua vez nos traz sensações de mais tranqüilidade e segurança.
Isso serve para a maioria dos casais que conhecem bem a passagem da euforia inicial para a rotina posterior. Mas, segundo uma teoria minha, há restrições quando a dupla amorosa é formada por pelo menos um militar. Afinal, a distância prolonga o estado de encantamento. Além da segurança que o tempo instaura, se mantém a emoção de cada retorno.
As horas que antecedem o encontram se arrastam intermináveis, o ônibus parece nunca chegar e o enjôo resolve aumentar, na rodoviária não há como não dar aquela última olhadinha no espelho e o frio na barriga está sempre presente. Quando os vemos, semanas ou meses depois de uma longa espera, o coração dispara e o nível de adrenalina sobe, como se estivéssemos em queda livre. Os braços nos envolvem com uma desenvoltura de quem já conhece bem o corpo que possui e nossas mãos sentem a sensação do cabelo raspado roçando os dedos. O cheiro da pele transpirando o perfume. O riso nervoso, as bocas que não se contentam com um, dois, três beijos, mais abraço. E lá vai o casal caminhando abraçado, como se pela primeira vez tivessem encontrado o amor de suas vidas.
As que moram perto e possuem o privilégio de repetir a cada sexta feira essa sensação provam também do gosto da despedida que cada domingo lhes reserva. Porém, são as que moram em outro estado que carregam a ânsia de saciar uma saudade sempre mais crescente. Eles a cada almoço correm para o armário e buscam uma mensagem no celular, como uma mão que quer a outra. Cada noite que parece só começar depois das nove horas, quando é possível ouvir uma voz do outro lado da linha falando da mesma espera tão conhecida por ele. Cada noite de campo, em que no meio da selva, por um lampejo de segundo, o corpo fadigado se relembra de um rosto, de um riso e desfalece exausto de sono. E se não há esse rosto, quão vazia se torna a existência. Bem longe, em algum ponto desse mundão de Deus, uma menina olha no computador as fotos, nas prateleiras pela casa mais fotos, na memória, mais cenas. Só cenas, falta a pele, onde está a boca, o cheiro, o corpo quente, onde, onde está o toque, o gosto? Longe, bem longe.
No meio da solidão, muitas vezes essas meninas se perguntam se o que sentem é um amor de verdade, ou uma espera para que um dia ele aconteça, se por acaso estão fugindo da realidade ao aguardar alguém voltar, se o que está em seu coração é um sentimento genuíno ou talvez um conto de fadas alimentado por ela...
Na academia, entre uma aula e outra, tudo que os cadetes pedem, numa oração em silêncio é que essas dúvidas não permitam que percam o fio invisível que o sustentam: o amor. E eles temem quietos os amigos que lá ficarão alfinetando a paz da sua amada. Morrem de pavor dos carinhas que podem vê-las lindas, podem abraçá-las e, se aproveitando da carência, roubem um valioso beijo, que eles não dividiriam jamais com ninguém. Nessa tortura, balançam a cabeça e tentam se concentrar na aula, nas instruções.
Mas, às vezes, dá um pânico e eles explodem com os companheiros de quarto. Choram, falam coisa com coisa, sentem raiva, uma mistura de sentimentos que evocam fraqueza. Isso desencadeia uma desconfiança coletiva.
Não é diferente a muitos quilômetros dali, quando uma namorada ouve histórias, como a de uma moça de Resende que namorou 4 anos com um cadete e ao se formar ele a abandonou sem piedade. O resultado? Ela se matou.
Não há como, por instantes de fraqueza, as namoradas novas não sentirem-se inseguras. Principalmente porque estão longe. Se você é uma destas, que já passou por isso, aquieta esse coração. Não há como roubar o lugar que já é seu.Quatro anos passam e ele vai voltar para você, para que formem uma vida juntos e muito adiante lembrarão desta batalha vencida. Se ouve constantemente, ou lê no olhar das pessoas, que essa espera não será recompensada, não deixe isso destruir o seu amor. Aliás, esse é um assunto para o próximo post!

1 Comments:

Anonymous Flávia said...

Como se já não bastasse a minha vida de esperas, agora ainda espero ansiosamente por cada novo post seu!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk....=)

Parabéns! bjo =*

sexta-feira, fevereiro 10, 2006 4:27:00 PM  

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